30/06/2018

VS. Vasco Santos

Uma investida de qualidade contra

                           a cultura balofa do escaparete lojista


            


     O homem não tem papas na língua, não fosse ele natural de Gestoso, herdeiro, portanto, do temperamento desprendido da serra da Gralheira.

     Proeminente psicanalista português (do melhor que há, ao que julgo saber), com uma vocação editorial que lhe satura as veias, Vasco Santos cedo dedicou parte substancial da sua vida ao combate à leitura de consumo fácil, mesmo ciente de que é essa que vende.

     O antigo editor da Fenda que, como o próprio disse: «quero morrer a editar», abre-nos agora as portas da VS., alertando que se recusa a publicar a metro para enfarta-brutos. Sim, esses que usam comprar um livro para férias, para uma leitura de toalha de praia e sobre o qual dizem aos amigos que se lê bem e que não conseguem parar senão na última página (achando, com isso, estar a abonar em favor do objeto lido); sim, esses que acham que um bom livro é aquele que conta uma boa história; sim, esses que leem de forma sôfrega, sem grandes exigências académicas e intelectuais; sim, esses, esses que nunca comprarão um livro na VS.

     Uma editora que publicará com um elevado grau de exigência, prestando, a meu ver, uma espécie de serviço público a bem da cultura e do conhecimento. Daí que me sinta impelido a afirmar que a editora está talhada não para CLIENTES, mas para UTENTES do saber.

     Eu, que tenho a noção do trabalho que dá a leitura de um Livro de jeito, já tenho comigo as duas primeiras edições da VS.:

                   - A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer,

                     de Stig DAGERMAN (já lido);

                   - Aforismos, de Karl KRAUS (a ler, sem pressas).


     Dr. Vasco Santos, vá por aí que o caminho é fecundo. E se um dia tiver que fazer a tal Curva da Estrada, que tenha o tal livro no prelo que, por cá, haverá quem o leia, seguramente.

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