29/11/2020

“O CIVID-19” ou “a COVID-19”?



    Além dos problemas de saúde pública, a atual pandemia trouxe consigo um conjunto de palavras novas que, rapidamente, entraram no vocabulário ativo de cada um de nós. É o caso concreto do acrónimo “COVID-19”, ouvido e lido diariamente por todos nós. Mas palavras novas levantam dúvidas novas.


   Vejamos, a título de exemplo, dois excertos de diplomas legais procedidos de dois ministérios governamentais diferentes:

 

                 […] "encerramento de instalações por perigo de contágio pela COVID-19" […]

               (Despacho n.º 5897-B/2020, Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social)

 

                 […] "máscaras destinadas à utilização no âmbito da pandemia do COVID-19" […]

               (Despacho n.º 5900/2020, Ministério do Estado, Economia e Transição Digital)

 

    Estes dois fragmentos revelam claras oscilações relativas ao género da palavra. O primeiro atribui-lhe o género feminino e o segundo, o género masculino. Em que ficamos, afinal?


    O acrónimo COVID-19 provém da expressão inglesa coronavirus disease. Ele forma-se nas sílabas truncadas CO- e VI-, obtidas do vocábulo coronarus. A estas, junta-se a inicial “D” da palavra disease («doença»). O número 19 refere o ano em que o vírus foi detetado.


    As variações de género atribuídas ao acrónimo resultam duma inegável confusão entre a doença e o vírus que a provoca. COVID-19 é uma doença (desease) e o coronavírus, um agente causador. Aliás, na persistência da dúvida, façamos uma analogia com os acrónimos SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida) e VIH (vírus da imunodeficiência humana). No primeiro, a palavra “síndrome” transfere o seu género feminino para SIDA (uma doença); no segundo, o vocábulo “vírus” empresta o mesmo género a VIH (agente responsável pela doença).


  No entanto, importa salvaguardar aqui o princípio da adaptação dos acrónimos com origem estrangeira, ao abrigo do qual se legitima qualquer género já vulgarizado, ainda que contraditório com a gramaticalidade da língua original.


   Já agora, aproveito para clarificar a pronúncia da palavra “coronavírus” no português europeu. O “o”, inserto na primeira sílaba “co”, é proferido como se de um “u” se tratasse, assumindo toda a palavra a prolação “curônavírus”: [kuronɐˈviruʃ].

 

 Use-se masculino ou feminino; diga-se [kuronɐˈviruʃ] ou [koronɐˈviruʃ], o mais importante, para já, é protegerem-se e protegerem os outros.

Coloquem a máscara!