24/08/2017

Eu sou o verbo estar, “tá”?





     Como em tudo na vida, a língua também está sujeita à erosão temporal. Tal como aquela fraga que se deixa moldar pela ação do vento e das chuvas ou aquela calçada de pedra calcária já deformada e que outrora foi disposta numa geometria perfeita pela arte dos mestres calceteiros, assim se vai mostrando a língua portuguesa no tapete rolante dos tempos.

 

     Todo o mundo é composto de mudança,

     Tomando sempre novas qualidades.


     Sábios são os versos do Barbi-Ruivo e que bem relevam para os propósitos que aqui me trazem hoje! As palavras que hoje conhecemos não são as mesmas de outros tempos; eu não sou o mesmo de outros tempos; os meus leitores não são os mesmos de outros tempos. Que o diga o verbo estar, uma das maiores vítimas da lei do menor esforço. Quem já não deu por si, na sua fala corrente, a amputar impiedosamente o verbo estar, nas suas mais variadas formas?

     Pego-se no telefone e pergunto: “ lá?”
     Se de lá ninguém responde, insisto: “Tou?”
     Já conformado, desligo o dito e desabafo: “Ainda tão a dormir. Tamos tramados!”
  
     No território da língua falada, estas aféreses gozam já de uma inevitabilidade quase universal e as mutações morfológicas decorrentes da sua emergência natural são factuais:
     
     Eu tou
     Tu tás
     Ele tá
     Nós tamos
     Vós tais
     Eles tão
 
     Proponho que façamos um pequeno esforço para contrariar esta tendência, mas sem stress. Se o não conseguirmos, “tá” tudo bem e a vida continua tranquila.

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