28/02/2022
Histórias com música, de Rogério Duarte
Nem só de leitores adultos vivem as belas letras. Na esfera da literatura cabem igualmente os leitores de palmo e meio, sendo na multiplicidade da produção de textos que o património literário se constrói.
A partir de agora, o "Esta língua que me fez" passará a publicar a rubrica "Histórias com música", de Rogério Duarte, um professor radicado em São Pedro do Sul, que dedicou uma parte substancial da sua vida à escrita para crianças, contando já com várias obras publicadas.
Os seus livros estão agora disponíveis, em formato "contador de histórias", no canal do Youtube, pela voz do próprio autor, numa clara demonstração da arte de bem contar.
Espero que gostem!
05/12/2021
Não digam “rúbrica”, por favor!
Caros leitores, se estiverem atentos à forma como, na conversação dial e também na nossa comunicação social, é pronunciada, de forma reiterada, a palavra “rubrica”, constatarão que esse vocábulo ocorre com a prolação [‘r̄ubrikα], como se a tónica estivesse localizada na primeira sílaba, ou seja: rú–bri-ca.
Ora, mandam as regras da prosódia
da língua portuguesa que a palavra em questão seja pronunciada com a tónica na
penúltima sílaba [r̄u’brikα],
na medida em que se trata de uma palavra paroxítona.
Desenganem-se, por isso, todos
aqueles que defendem a coexistência das duas formas, alegando que “rúbrica” nos
remete para uma assinatura abreviada e “rubrica”, quando falamos de um assunto,
matéria, tópico, programa radiofónico ou televisivo. A palavra deve
pronunciar-se com acentuação grave para todas as suas aceções, não
possuindo, na escrita, qualquer acento gráfico.
Já agora, deixo-vos aqui uma
pequena abordagem à história deste vocábulo tão maltratado nos nossos dias:
Do latim rubrĩca, œ (tinta vermelha), diretamente ligada
a ruber, rubra e rubrum (vermelho), tinha como significado “argila vermelha”. O facto de
os livros ancestrais e os manuscritos medievos possuírem os seus títulos a cor
vermelha fez com que a sua designação passasse a ser conhecida como rubricas. O mesmo sucede com a letra ou linha inicial de um capítulo em códices antigos;
as notas dos breviários ou missais; ou os títulos
dos capítulos de livros de direito… todos eles
escritos a tinta vermelha. Só muito mais tarde, a mesma palavra adquiriu o
alcance semântico de assinatura abreviada.
Esta foi a minha rubrica de hoje.
03/09/2021
Até sempre, Isabel da Nóbrega
Uma vida que se perde, um estro que perdura.
Celebremos
o mérito de mais um grande valor da nossa literatura. Maria Isabel Guerra
Bastos Gonçalves, assim chamada desde o nascimento, mas que, na esfera das
belas letras, se viria a afirmar sob o pseudónimo de Isabel da Nóbrega.
O talento, no
entanto, não se fez apenas valer na literatura. Com a escritora parte também
uma imagem de marca do jornalismo.
Foram 96
anos de dedicação e afirmação feminina no panorama cultural do nosso país e do
mundo.
Fica para sempre a
sua obra, o seu legado intelectual e a beleza irrepetível dos seus olhos.
Obrigado!
16/06/2021
Linguagens inclusivas/neutras? Não, obrigado!
Sirvo-me desta nota introdutória
como mote de reflexão em torno das chamadas línguas inclusivas e neutras. E,
desde já, vinco a minha total discordância quer em relação a uma, quer em
relação a outra. Os modismos são o que são e valem o que valem. Vejamos,
primeiro, em que é que consiste cada um destes conceitos:
1 – Linguagem inclusiva (não sexista)
Trata-se de uma suposta variante
que, não se propondo alterar o léxico da LP tal como o conhecemos, advoga uma
comunicação pretensamente não discriminatória, sob o ponto de vista do género. Vejamos
um exemplo muito recorrente: “Portugueses e portuguesas…”, quando um orador se
dirige a um público compósito (homens e mulheres);
2 – Linguagem neutra (não binária)
Prossegue os mesmos objetivos da
linguagem inclusiva, mas altera palavras já existentes ou introduz novos
vocábulos. É o caso da neutralização das desinências de género do pronome “todos”.
Vejamos um exemplo concreto: “Saiam todes da sala!”
Na base destes dois tipos de linguagem,
estão conhecidos movimentos feministas de todo o mundo, bem como organizações inclusivas
de pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de género.
Desenganem-se todos aqueles que veem na eclosão destas linguagens meras
iniciativas efémeras. Não, estas linguagens estão a afirmar-se em todos os
cantos do planeta, nomeadamente na Europa. Tomemos como ilustrativo o recente
caso ocorrido em França, onde o respetivo poder político vetou o uso da chamada
gramática igualitária em documentos oficiais, com a devida concordância da
Academia Francesa que chegou mesmo a referir-se a esta tendência linguística
como “um perigo de morte para a francofonia”.
A flexão em género é uma característica do
nosso idioma, à imagem do que acontece, genericamente, com as restantes línguas
neolatinas. Sobre a origem desta flexão, nomeadamente da predominância do
género masculino em algumas palavras (outrora com desinência neutra), já me
pronunciei num artigo anterior, também aqui publicado. Alterar este status quo linguístico em nome da
igualdade de género não faz para mim o menor sentido. É urgente acabar com
aquilo que aqui rotulo como vanguardas fundamentalistas e que estas linguagens
acima explicitadas não passem de um mero processo de intenções. Imagine-se
termos agora que expandir os nossos dicionários com entradas de género regular:
gato/gata; menino/menina... NÃO, OBRIGADO!
As sociedades ainda permanecem fieis à
sua matriz machista, é certo, mas não se remedeia um erro com outro erro. Não é
pelo facto de um político iniciar os seus discursos com expressões como
“portuguesas e portugueses” que se combate a discriminação de género. Haja
coragem para o fazer, mas sem se recorrer a adornos linguísticos estéreis ou a
quaisquer outros atavios infecundos.
14/02/2021
"Cântico Negro" na voz de Sandra Coelho
O sujeito poético não quer ir por aí, porque por aí vão todos os outros. Não estamos perante uma atitude isolacionista, mas antes de um ego inconformado, uma ovelha tresmalhada em rota de colisão um alter seguidista.
É nesta individualidade que o modernista se refugia e se recusa a ser igual aos demais, resistindo ao chamamento de uma sociedade apática e previsível. Um sujeito poético que opta; um eu que faz escolhas sem interferências externas; que não teme as consequências das suas decisões, mesmo que estas o conduzam ao fracasso e ao grotesco (amo os abismos, as torrentes, os desertos...); que abraça a novidade emergente de uma vida moderna, instável e progressista, em rotura com o cheiro a mofo do conservadorismo: a sua vida é um vendaval que se soltou, uma onda que se alevantou, um átomo a mais que se animou...
Mas o poeta também se mostra na sua dimensão metafísica, característica que entalha a sua obra com uma religiosidade indelével: Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Parabéns à Sandrinha pela forma brilhante como deu voz ao poeta!
Vem por aqui" —
dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só
vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber
nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê
piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
03/01/2021
Um brinde à memória de Torga
Hoje lembrei-me de Torga. Como durienses que somos, gostamos de fruto da videira e do trabalho do homem. Eu gosto, ele, provavelmente.
Peguei num dos seus livros e abri uma garrafa de vinho da nossa zona. Coloquei dois copos sobre a mesa e fiz o ofertório: um para mim e outro para ele. A ideia era ir bebendo enquanto lia. Beber um copo no final de cada poema. O dele manteve-se cheio, o meu, nem por isso.
Guardei o fundo da garrafa para este:
Súplica
Agora que o silêncio é um
mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer,
enquanto O nosso amor Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada
29/11/2020
“O COVID-19” ou “a COVID-19”?
Além dos problemas de saúde pública, a atual pandemia trouxe consigo um conjunto de palavras novas que, rapidamente, entraram no vocabulário ativo de cada um de nós. É o caso concreto do acrónimo “COVID-19”, ouvido e lido diariamente por todos nós. Mas palavras novas levantam dúvidas novas.
Vejamos, a título de exemplo, dois excertos de diplomas legais procedidos de dois ministérios governamentais diferentes:
[…] "encerramento de instalações por perigo de contágio pela COVID-19" […]
(Despacho n.º 5897-B/2020, Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social)
[…] "máscaras destinadas à utilização no âmbito da pandemia do COVID-19" […]
(Despacho n.º 5900/2020, Ministério do Estado, Economia e Transição Digital)
Estes dois fragmentos revelam claras oscilações relativas ao género da palavra. O primeiro atribui-lhe o género feminino e o segundo, o género masculino. Em que ficamos, afinal?
O acrónimo COVID-19 provém da expressão inglesa coronavirus disease. Ele forma-se nas sílabas truncadas CO- e VI-, obtidas do vocábulo coronavírus. A estas, junta-se a inicial “D” da palavra disease («doença»). O número 19 refere o ano em que o vírus foi detetado.
As variações de género atribuídas ao acrónimo resultam duma inegável confusão entre a doença e o vírus que a provoca. COVID-19 é uma doença (desease) e o coronavírus, um agente causador. Aliás, na persistência da dúvida, façamos uma analogia com os acrónimos SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida) e VIH (vírus da imunodeficiência humana). No primeiro, a palavra “síndrome” transfere o seu género feminino para SIDA (uma doença); no segundo, o vocábulo “vírus” empresta o mesmo género a VIH (agente responsável pela doença).
No entanto, importa salvaguardar aqui o princípio da adaptação dos acrónimos com origem estrangeira, ao abrigo do qual se legitima qualquer género já vulgarizado, ainda que contraditório com a gramaticalidade da língua original.
Já agora, aproveito para clarificar a pronúncia da palavra “coronavírus” no português europeu. O “o”, inserto na primeira sílaba “co”, é proferido como se de um “u” se tratasse, assumindo toda a palavra a prolação “curônavírus”: [kuronɐˈviruʃ].
Use-se masculino ou feminino; diga-se [kuronɐˈviruʃ] ou [koronɐˈviruʃ], o mais importante, para já, é protegerem-se e protegerem os outros.












