14/02/2021

"Cântico Negro" na voz de Sandra Coelho



   Já quase 100 anos nos separam (ou nos juntam) dos Poemas de Deus e do Diabo da lavra de José Régio. Deles trago aqui o Cântico Negro, o poema-manifesto que subsume em si todo um estilo presencista que viria a marcar a obra poética deste escritor modernista, uma pedra no charco que agita a cultura portuguesa, anémica e irresoluta, do primeiro quartel do século XX.

   O sujeito poético não quer ir por aí, porque por aí vão todos os outros. Não estamos perante uma atitude isolacionista, mas antes de um ego inconformado, uma ovelha tresmalhada em rota de colisão um alter seguidista.

 

   É nesta individualidade que o modernista se refugia e se recusa a ser igual aos demais, resistindo ao chamamento de uma sociedade apática e previsível. Um sujeito poético que opta; um eu que faz escolhas sem interferências externas; que não teme as consequências das suas decisões, mesmo que estas o conduzam ao fracasso e ao grotesco (amo os abismos, as torrentes, os desertos...); que abraça a novidade emergente de uma vida moderna, instável e progressista, em rotura com o cheiro a mofo do conservadorismo: a sua vida é um vendaval que se soltou, uma onda que se alevantou, um átomo a mais que se animou...

 

   Mas o poeta também se mostra na sua dimensão metafísica, característica que entalha a sua obra com uma religiosidade indelével: Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!

 

   Parabéns à Sandrinha pela forma brilhante como deu voz ao poeta!

 

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

 

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

 

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

 

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

 

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

 

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,

É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

03/01/2021

Um brinde à memória de Torga


  Hoje lembrei-me de Torga. Como durienses que somos, gostamos de fruto da videira e do trabalho do homem. Eu gosto, ele, provavelmente.

  Peguei num dos seus livros e abri uma garrafa de vinho da nossa zona. Coloquei dois copos sobre a mesa e fiz o ofertório: um para mim e outro para ele. A ideia era ir bebendo enquanto lia. Beber um copo no final de cada poema. O dele manteve-se cheio, o meu, nem por isso.

  Guardei o fundo da garrafa para este:

 

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer,
enquanto O nosso amor Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada







29/11/2020

“O COVID-19” ou “a COVID-19”?



    Além dos problemas de saúde pública, a atual pandemia trouxe consigo um conjunto de palavras novas que, rapidamente, entraram no vocabulário ativo de cada um de nós. É o caso concreto do acrónimo “COVID-19”, ouvido e lido diariamente por todos nós. Mas palavras novas levantam dúvidas novas.


   Vejamos, a título de exemplo, dois excertos de diplomas legais procedidos de dois ministérios governamentais diferentes:

 

                 […] "encerramento de instalações por perigo de contágio pela COVID-19" […]

               (Despacho n.º 5897-B/2020, Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social)

 

                 […] "máscaras destinadas à utilização no âmbito da pandemia do COVID-19" […]

               (Despacho n.º 5900/2020, Ministério do Estado, Economia e Transição Digital)

 

    Estes dois fragmentos revelam claras oscilações relativas ao género da palavra. O primeiro atribui-lhe o género feminino e o segundo, o género masculino. Em que ficamos, afinal?


    O acrónimo COVID-19 provém da expressão inglesa coronavirus disease. Ele forma-se nas sílabas truncadas CO- e VI-, obtidas do vocábulo coronarus. A estas, junta-se a inicial “D” da palavra disease («doença»). O número 19 refere o ano em que o vírus foi detetado.


    As variações de género atribuídas ao acrónimo resultam duma inegável confusão entre a doença e o vírus que a provoca. COVID-19 é uma doença (desease) e o coronavírus, um agente causador. Aliás, na persistência da dúvida, façamos uma analogia com os acrónimos SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida) e VIH (vírus da imunodeficiência humana). No primeiro, a palavra “síndrome” transfere o seu género feminino para SIDA (uma doença); no segundo, o vocábulo “vírus” empresta o mesmo género a VIH (agente responsável pela doença).


  No entanto, importa salvaguardar aqui o princípio da adaptação dos acrónimos com origem estrangeira, ao abrigo do qual se legitima qualquer género já vulgarizado, ainda que contraditório com a gramaticalidade da língua original.


   Já agora, aproveito para clarificar a pronúncia da palavra “coronavírus” no português europeu. O “o”, inserto na primeira sílaba “co”, é proferido como se de um “u” se tratasse, assumindo toda a palavra a prolação “curônavírus”: [kuronɐˈviruʃ].

 

 Use-se masculino ou feminino; diga-se [kuronɐˈviruʃ] ou [koronɐˈviruʃ], o mais importante, para já, é protegerem-se e protegerem os outros.

Coloquem a máscara!