19/03/2026

HOJE ESTOU TIPO COM VONTADE DE ESCREVER SOBRE O “TIPO”

 O que se passa com os nossos alunos (e não só) que não param de usar, por tudo e por nada, a palavra “tipo”?!

«Estou, tipo, com sono»;

«Apetece-me, tipo, comer um chocolate…»

Há dias, deu-me para contar o número de vezes que os alunos de uma das minhas turmas recorrem ao uso desta palavra em contexto de sala de aula, não porque não tivesse mais que fazer, mas porque fui movido por mera curiosidade sedutora. Contei-as durante uma semana e os resultados não me surpreenderam: 92 ocorrências. E até estou em crer que essa não foi uma das semanas mais férteis nessa matéria.

Perguntei-lhes, depois, por que razão o fazem e as respostas que obtive foram muito semelhantes: «Não sei, professor, sai-me!»

Parece-me claro que estamos perante mais um bordão de fala provocado pela rapidez da comunicação, uma espécie de muleta linguística a que se recorre, de forma automatizada, em momentos de hesitação no discurso.

Este fenómeno também não escapou aos linguistas do utilíssimo “Ciberdúvidas da língua portuguesa” que concluíram tratar-se de um marcador discursivo, «unidades linguísticas invariáveis, com alto grau de gramaticalização, que não desempenham uma função sintática no âmbito da frase, nem contribuem para o sentido proposicional do discurso, mas que têm uma função relevante na produção dos atos pragmático-discursivos, estabelecendo conexões entre os enunciados, organizando-os em blocos, indicando o seu sentido argumentativo, introduzindo novos temas, mantendo e orientando o contacto do locutor com o interlocutor.»

Tenho constatado também que esta tendência (ou moda, como queiram) não constitui um apanágio das idades mais jovens, pois parece-me ter sido já incorporada na conversação dos falantes adultos, talvez por mero efeito de contágio ou porque veem nela uma forma de aproximação aos seus filhos, utilizando o “tipo” como mecanismo de supressão de barreiras intergeracionais.

Bom, agora, tipo, despeço-me dos meus leitores com, tipo, um abraço.

29/11/2025

“Tem que” ou “tem de”

         Aquando da Medalha de Mérito Cultural atribuída a Herman José, o comediante disse o seguinte:

 «A liberdade tem que ser regada».

 Concordo com o espírito da afirmação, mas não deixo de registar a derrapagem linguística do “tem que ser”.

Apesar de muitos recorrerem ao uso indiscriminado das construções “ter que” e “ter de”, o que é certo é que o alcance semântico de cada uma delas é diferente, senão vejamos:

 

1 – Quando queremos expressar um desejo ou, como neste caso concreto, uma obrigação, uma necessidade ou um dever relativamente a algo (a obrigação ou o dever de regarmos a liberdade para a manter saudável), a construção correta é “A liberdade tem de ser regada”. O verbo ter ocorre aqui como verbo auxiliar de uma conjugação perifrástica;

2 – Em direção semântica distinta, segue a construção ter que, onde o ter não é considerado um auxiliar, mas um verbo principal, com significação própria: possuir ou usufruir, consoante o contexto verbal (ou cotexto, no dizer dos filósofos da linguagem de Oxford). É nesta esfera conceptual que se enquadram os sintagmas substantivos que fazer e que contar:

a) "Ter que fazer” (ter muito trabalho a seu cargo);

b)    “Ter que contar” (possuir peripécias para contar. Veja-se o que escreveu Almeida Garrett: «Lá vem a Nau Catrineta / que tem muito que contar!», onde o verbo assume o seu significado pleno);

Vejamos agora duas frases que, enganosamente, apontam para uma mesmidade de sentido, mas que não o são:

c)    “O mendigo não tem que comer”;

d)    “O mendigo não tem de comer”.

Em c), estamos a falar de um mendigo que comeria se tivesse algum alimento que lhe servisse de refeição. Já em d), referimo-nos a um mendigo que, embora tenha alimentos disponíveis, não come, porque não é obrigado a fazê-lo.

    Bom, agora tenho de terminar este artigo que já vai longo e tenho mais que fazer.

09/06/2025

“À última da hora” vs “à última hora”

 


   Na sua edição de 14 de maio de 2025, o Jornal de Notícias publicou um artigo sobre o último Festival de Cinema de Cannes e fê-lo com um título em caixa alta:
 
      “Halle Berry mudou de roupa à última da hora devido às novas regras de Cannes”
 
   Confesso que a indumentária que os famosos escolhem para determinadas cerimónias é assunto que pouco ou nada me interessa, muito embora tenha uma predileção especial sobre tudo que diga respeito à sétima arte, ainda mais tratando-se de Halle Berry, uma das atrizes mais talentosas do mundo do cinema. O que me levou a dedicar algum do meu tempo a este artigo foi o teor linguístico do seu título, mais concretamente a expressão “à última da hora” que, em bom rigor, constitui mais um vício de linguagem dos muitos que por aí grassam.
   Quantos de nós já não a utilizámos em conversações informais ou mesmo quando escrevemos à pressa? Acontece que a jornalista que assinou o texto, capitulado nos referidos termos, não estava a escrever à pressa nem tão-pouco a conversar num contexto de informalidade.
   Não é correto escrever/dizer “à última da hora”, tal como não seria aceitável escrever/dizer “ao último do minuto” ou “ao último do segundo”. Já agora, seria admissível a locução “à primeira da hora”?! Claro que não.
   A forma correta é “à última hora”, com o significado de “último instante”:
   É verdade que há dicionários que registam as duas formas para o mesmo sentido (como é o caso do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências ou do Priberam), no entanto, tal preceito não legitima o uso do solecismo, na medida em que este tem merecido o repúdio da generalidade dos especialistas.




11/03/2025

“Visualização de um vídeo” ou “visionamento de um vídeo”?


   Existe ou não uma diferença de sentido entre “visualização de um vídeo” e “visionamento de um vídeo”?

   Provavelmente, muitos de nós já tropeçámos nesta dúvida, sempre que quisemos registar uma determinada atividade letiva num sumário de aula ou uma iniciativa num plano anual de atividades.

   Uma tendência mais desavisada leva-nos ao uso indiscriminado das duas formas, no pressuposto de que se trata de uma sinonímia como tantas outras disponíveis no léxico da língua portuguesa.

   Não, “visualização” e “visionamento” não constituem uma mesmidade. É certo que, ao nível da decomposição lexical, estes dois vocábulos partilham alguns semas, mas possuem outros que se mostram divergentes entre si, conferindo-lhes um carácter distintivo.

   “Visualizamos um vídeo” quando a ele assistimos numa perspetiva de mero espetador. No entanto, se o fizermos sob um ponto de vista técnico, aí já estaremos não a visualizar o vídeo, mas a “visioná-lo”.

   Importa ainda referir que “visualizar” também pode significar, numa conceção semântica mais generalizada da palavra, o simples ato de ver, ou seja, podemos “visualizar uma gaivota no céu” ou “visualizar o trânsito em hora de ponta”.

   Vejamos, pois, alguns exemplos do que acabámos de referir:

 

(1)       «Além do contexto de produção e exibição do filme, o contexto de visionamento é também um fator essencial para a apreciação de um filme.» (https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/cinema-or-arte-e-lazer)

(2)       «Adicionar filmes e séries à lista de visualização é um processo simples […]» (https://www.pcguia.pt/2024/09/como-usar-o-google-para-criar-uma-lista-de-series-e-filmes-que-quer-ver/)

(3) «Outros sintomas de alarme são a dor nos olhos, visualização de “flashes de luz”» (https://www.saudebemestar.pt/pt/clinica/oftalmologia/visao-turva/)

 

   Resumindo, em (1), está-se a olhar para um filme sob o ponto de vista técnico; em (2), olhamos para os filmes numa perspetiva de espetador; em (3), falamos apenas do mero ato de olhar.

18/01/2025

VEM POR AQUI, NÃO VÁS POR ALI

 

A vida é um caminho cheio de portas.

Portas que se abrem, que se fecham,

Portas que se abrem por descuido,

Mas que, abertas, já não fecham…

E BERRO: NÃO!

Portas que se fecham por desleixo,

Mas que, fechadas, já não abrem…

GRITO: SIM!

São portas manhosas, portas cruéis,

São portas amigas, portas fiéis.

13/12/2024

“Envio anexo” ou “envio em anexo”?

     

    Ao longo das últimas décadas, o correio eletrónico tem vindo a ganhar um espaço preferencial na comunicação entre pessoas, instituições e empresas. De tal forma assim é que seria impensável, nos dias que correm, qualquer um de nós prescindir de tal ferramenta.

    São muitas as suas potencialidades e estas não encontram paralelo nos meios de comunicação tradicionais: a rapidez com que chegamos aos nossos destinatários, recorrendo a um simples clique; o envio de mensagens a um grande número de destinatários, em simultâneo; e a possibilidade de anexarmos documentos/imagens. Ora, é precisamente daqui que decorre o tema que hoje vos trago.

    Quem nunca escreveu “envio em anexo” que atire a primeira pedra.

    Eu não vou atirar, garanto-vos.

    A palavra “anexo” é um adjetivo e não um advérbio. Não ocorre como modo da ação “enviar”, mas como qualificativo do nome a que se refere, com ele concordando em género e em número. Daí que se escreva “envio anexas as faturas deste mês” e não ““envio em anexo as faturas deste mês”.

    A tendência para a anteposição da preposição “em”, adjacente aos adjetivos, constitui um galicismo que se revela adverso ao cânone regulamentar da nossa língua. Nada me move contra os empréstimos linguísticos quando estes se mostram necessários, o que não é o caso. Quando assim não é, há que evitá-los.

    Será este mais um resquício da francomania que se viveu em Portugal nos anos finais do século XIX? Talvez. Nesses tempos, a nossa capital estava rendida à cultura francesa e eram muito comuns, por entre nós, as “macaquices de imitação”. Boas razões levaram, pois, o compositor Raul Ferrão a criar a célebre música “Lisboa, não sejas francesa”, chegada até nós pela voz sublime da nossa Amália Rodrigues:

 

Lisboa, não sejas francesa
Com toda a certeza não vais ser feliz
Lisboa, que ideia daninha
Vaidosa, alfacinha, casar com Paris

Lisboa, tens cá namorados
Que dizem, coitados, com as almas na voz
Lisboa, não sejas francesa
Tu és portuguesa, tu és só pra nós