09/06/2024

“FOI UM DOS QUE GANHOU” vs “FOI UM DOS QUE GANHARAM”

    Sem dúvidas, diz-se e escreve-se “Ele foi um dos que ganharam o concurso”.

    Este é um solecismo epidémico que grassa pelas bocas de muitos dos falantes da língua portuguesa. Influenciados pela força de atração da palavra “um”, caem no erro de estabelecer uma concordância enganosa entre ela e o verbo que lhe é posposto.

    Existe um processo heurístico que facilmente desmonta esta impolidez sintática e que passa pela inversão da ordem dos elementos na frase:

    1 - Ele foi um dos que ganhou o concurso;

    2 – Dos que ganhou o concurso, ele foi um.

    A concordância desviante desta construção frásica facilmente se faz notar no exemplo 2, onde se sobreleva a imperiosidade do plural do verbo “ganhar”.

    Outros dirão, no entanto, que a ocorrência do singular pode ser usada com propósitos enfáticos, de forma a destacar a importância de “um” no contexto daqueles “que ganharam o concurso”. A esses direi, contudo, que tal argumento resulta apenas de uma tentativa de salvar a face de escritores consagrados que usaram a forma singular do verbo neste tipo de construções. Os melhores escritores também erram e não são necessários tais contorcionismos linguísticos para lhes disfarçar as gafes, pois não será por elas que lhes cairão os parentes à lama e tampouco se lhes retira o inquestionável mérito literário.

    Para que evitemos esta praga linguística, sigamos o exemplo de Camões quando escreve “Era este Catual um dos que estavam corruptos”.

06/03/2024

Entre Tânger e tangerina

 


    Há dias, enquanto fazia algumas compras num minimercado perto da minha casa, lembrei-me de como há palavras que carregam, na sua origem, informação sobre a nossa história. Estava na secção da fruta e, num papel identificador, estava escrito «tangerinas: 2 euros o quilo”. Não foi o preço que me chamou a atenção nem tão-pouco a vontade de as comprar. Foi a palavra em si.

    Fala-se hoje muito, nas escolas, dos domínios de autonomia curricular (as chamadas DAC) e das suas potencialidades na exploração de percursos pedagógico-didáticos que intersetam aprendizagens de diferentes disciplinas. Logo ali, pensei nas muitas palavras da nossa língua que podem convocar um trabalho interdisciplinar bastante fecundo entre a Língua Portuguesa e a História. É que a palavra “tangerina” (outrora chamada laranja tangerina) pode ser, também ela, um discreto documento histórico.

    A palavra recebeu o seu nome de Tânger, a importante cidade do norte de África, conquistada pelos portugueses em 1471. Era aí, nomeadamente no seu porto mercantil, que o pequeno citrino era exportado para a Europa.

    A tangerina, variante feminina de tangerino (gentílico que significa natural da cidade de Tânger), crescia abundantemente nos pomares daquela região e foram precisamente os árabes que a introduziram em Portugal.

    Deixo aqui esta sugestão para “descascar” um trabalho articulado com os alunos, convidando também os professores de Ciência Naturais a juntarem-se a este desafio, pois há também que classificar o fruto sob o ponto de vista científico e nutricional.

08/12/2023

“COM CERTEZA” DE QUE É ASSIM QUE SE ESCREVE

 



   Não obstante as minhas limitações científicas sobre matérias relacionadas com a Astrofísica, a verdade é que não perco uma oportunidade para ler notícias e artigos sobre o este assunto, pelo fascínio incomensurável que ele me causa. Foi precisamente num desses momentos de leitura que me deparei com algo que me despertou a atenção linguística e mereceu, por isso, um devido apontamento que aqui vos trago.

   O texto em causa veicula a opinião de Vítor Cardoso, um ilustríssimo físico cuja mestria e superlativa erudição de pensamento não passa despercebida na comunidade científica internacional. O artigo vinha publicado no jornal Expresso do pretérito dia 6/10/2020, na sua edição digital (Estamos a aproximar-nos cada vez mais da superfície dos buracos negros - Expresso).

   A certa altura, escreve o autor:

     «[…] Isto não prova que esse objeto seja um buraco negro - na realidade, por definição é impossível provar que buracos negros existem - mas é concerteza evidência boa […]» (sublinhado meu).

   Não configurando propriamente um buraco negro na ortografia portuguesa, não deixo de destacar o erro na grafia de “com certeza”, muito comum, aliás, na generalidade dos utilizadores da nossa língua. Erros como este há-os em quantidades generosas e resultam de uma clara interferência da oralidade na escrita, na medida em que quem fala tende a aglutinar sons que devem ser separados por quem escreve.

   Fenómeno semelhante é aquele que se verifica em equívocos tão recorrentes como “benvindo” em vez de “bem-vindo”, “depressa” em vez de “de pressa”, “derrepente” em vez de “de repente” ou “secalhar” em vez de “se calhar”.

07/07/2022

Dignitário e não dignatário

   Na edição do jornal Expresso do dia 10 de março deste ano, foi veiculada uma notícia sobre a guerra na Ucrânia que dava nota da vontade de o papa Francisco mediar um entendimento diplomático entre os dois líderes em conflito, tendo, inclusivamente, nomeado dois cardeais para esse efeito. A certa altura, lê-se o seguinte:

 “As movimentações diplomáticas não esgotam, porém, as ações que o Papa Francisco tem levado a cabo nos últimos dias e que passaram pelo envio, para o cenário de guerra, de dois altos dignatários de Roma.”

   Com todo o respeito que me merece o semanário informativo e o jornalista responsável pela redação do texto, não posso deixar de assinalar um erro de português que ocorre neste pequeno excerto, mais especificamente na palavra dignitário, aí escrita erradamente.

   É certo que não se trata de um erro incomum, pelo contrário, ele ocorre com muita frequência no uso dial da nossa língua. Contudo, estamos a falar de um jornal de referência no universo da comunicação social, do qual se exige o devido rigor.

   A tendência para o uso errado da palavra, na forma “dignatário”, decorre de um fenómeno de contágio marcado pela grafia do verbo “dignar”.

   Trata-se de um vocábulo que resulta do aportuguesamento do “dignitaire” francês que, por sua vez, radica do termo latino “dignitate”. A história fonética da palavra “dignitário” revela-nos um possível estado intermédio que a fixou como “dignitatário”, já com a presença do sufixo “-ário”, sobre a qual foi exercida uma haplologia que fez cair a terceira sílaba, resultando na forma sincopada “dignitário”, atualmente usada na nossa língua.

   Esta vocação evolutiva do vocabulário português para a supressão da primeira de duas sílabas semelhantes, em adjacência silábica, pode ser verificada também noutros casos concretos como:

 bondade + oso    >     bondadoso     >    bondoso

caridade + oso    >     caridadoso     >    caridoso

cândido + ura     >     candidura       >    candura

idade + oso        >     idadoso           >    idoso

    O fenómeno haplológico também ocorre noutras línguas, como é o caso da palavra inglesa probably:

 probable + ly     >     probablely       >    probably

    Encerro este texto, desejando aos meus dignitários leitores umas boas férias de verão (se for esse o caso), fazendo votos de que os próximos dias tragam a paz para a Ucrânia e Rússia, em vez de atitudes maldadosas (i.e. maldosas).

 

 

 


03/04/2022

Sandes, Sande, Sanduíche?


 

Sandes, Sande, Sanduíche?

 

    A palavra sande tem suscitado dúvidas recorrentes em todos aqueles que gostam de fazer um bom uso da língua portuguesa. Para outros, no entanto, a questão nem se coloca pois o que importa é que o pão esteja fresco e o presunto venha em quantidades generosas.

    Devemos pedir uma sande, uma sandes ou uma sanduíche?

   A palavra sanduíche resulta de um aportuguesamento do vocábulo inglês sandwich. Através de um processo de truncação, a palavra foi reduzida a sand/sandes, tal como aconteceu, por exemplo, com a passagem de metropolitano a metro.

   Não é necessária uma abordagem estatística exaustiva para concluir que, no singular, a forma sandes se sobrepõe a sande no uso dial da língua lusa. No entanto, resulta numa irrefutabilidade a conclusão de que a forma sandes decorre da flexão regular de sande na sua variação em número, ou seja: uma sande, duas sandes. É esta a perspetiva normativista da questão, na base da qual somos levados a concluir que não se pode pedir uma sandes, mas uma sande.

   Acontece que, em língua alguma, os seus utilizadores se sentem reféns da inflexibilidade normativa quando falam ou escrevem. Aliás, alguns dicionários já lexicalizaram o plural da palavra no seu uso singularizado.

   Normas linguísticas à parte, a perspetiva descritivista dos especialistas diz-nos que o uso da forma sandes se consagrou nos mais variados contextos geográficos do país, pelo que de nada vale ao ímpeto purista da língua continuar a contrariar o que não é contrariável.

   Curiosidade:

   A palavra sandwich, enquanto epónimo, tem origens lendárias. Acredita-se que John Montagu, Conde da cidade britânica de Sandwich (séc. XVIII), era viciado em jogos de cartas. Envolvia-se tão entusiasticamente nas cartadas que se recusava suspendê-las no momento das suas refeições. Como forma de saciar o estômago sem abandonar a mesa de jogo, ordenava que lhe trouxessem um naco de carne assada entalada em duas fatias de pão. De quando em vez, variava o recheio com outras opções nutritivas. Os seus parceiros de jogo, ao constatar a natureza nutrícia e pragmática da bucha, trataram de a popularizar junto dos clubes londrinos da época.

21/03/2022

Gastão Cruz, para sempre


 

Faleceu, hoje, mais um talento da literatura portuguesa e, com ele, parte também um homem culto, um académico, um ser humano generoso.

Poeta, ensaísta e tradutor, entrou para o grande palco das belas letras lusitanas no ano de 1961 e, de lá para cá, não mais parou de bem escrever.

Agora, a morte percutiva "devolve ao chão as folhas e os ossos", mas preserva para o sempre o seu precioso estro.

Condolências à família e amigos.

Obrigado!

28/02/2022

Histórias com música - O peixinho cor de prata

 


 

Histórias com música: Chanfrisco - O pinto careca


 

Histórias com música, de Rogério Duarte


 

    Nem só de leitores adultos vivem as belas letras. Na esfera da literatura cabem igualmente os leitores de palmo e meio, sendo na multiplicidade da produção de textos que o património literário se constrói.

   A partir de agora, o "Esta língua que me fez" passará a publicar a rubrica "Histórias com música", de Rogério Duarte, um professor radicado em São Pedro do Sul, que dedicou uma parte substancial da sua vida à escrita para crianças, contando já com várias obras publicadas.

   Os seus livros estão agora disponíveis, em formato "contador de histórias", no canal do Youtube, pela voz do próprio autor, numa clara demonstração da arte de bem contar.

   Espero que gostem!

05/12/2021

Não digam “rúbrica”, por favor!

Caros leitores, se estiverem atentos à forma como, na conversação dial e também na nossa comunicação social, é pronunciada, de forma reiterada, a palavra “rubrica”, constatarão que esse vocábulo ocorre com a prolação [‘ubrikα], como se a tónica estivesse localizada na primeira sílaba, ou seja: rú–bri-ca.

Ora, mandam as regras da prosódia da língua portuguesa que a palavra em questão seja pronunciada com a tónica na penúltima sílaba [u’brikα], na medida em que se trata de uma palavra paroxítona.

Desenganem-se, por isso, todos aqueles que defendem a coexistência das duas formas, alegando que “rúbrica” nos remete para uma assinatura abreviada e “rubrica”, quando falamos de um assunto, matéria, tópico, programa radiofónico ou televisivo. A palavra deve pronunciar-se com acentuação grave para todas as suas aceções, não possuindo, na escrita, qualquer acento gráfico.

Já agora, deixo-vos aqui uma pequena abordagem à história deste vocábulo tão maltratado nos nossos dias:

Do latim rubrĩca, œ (tinta vermelha), diretamente ligada a ruber, rubra e rubrum (vermelho), tinha como significado “argila vermelha”. O facto de os livros ancestrais e os manuscritos medievos possuírem os seus títulos a cor vermelha fez com que a sua designação passasse a ser conhecida como rubricas. O mesmo sucede com a letra ou linha inicial de um capítulo em códices antigos; as notas dos breviários ou missais; ou os títulos dos capítulos de livros de direito… todos eles escritos a tinta vermelha. Só muito mais tarde, a mesma palavra adquiriu o alcance semântico de assinatura abreviada.

Esta foi a minha rubrica de hoje.

03/09/2021

Até sempre, Isabel da Nóbrega

 



Uma vida que se perde, um estro que perdura.

Celebremos o mérito de mais um grande valor da nossa literatura. Maria Isabel Guerra Bastos Gonçalves, assim chamada desde o nascimento, mas que, na esfera das belas letras, se viria a afirmar sob o pseudónimo de Isabel da Nóbrega.

O talento, no entanto, não se fez apenas valer na literatura. Com a escritora parte também uma imagem de marca do jornalismo.

Foram 96 anos de dedicação e afirmação feminina no panorama cultural do nosso país e do mundo.

Fica para sempre a sua obra, o seu legado intelectual e a beleza irrepetível dos seus olhos.

Obrigado!

16/06/2021

Linguagens inclusivas/neutras? Não, obrigado!



  Antes de mais, quero deixar claro que não sou daqueles que se batem pelo estaticismo da língua portuguesa, mas também não me quero prevalecer do estereótipo falacioso de que a língua é um organismo vivo. Ela só existe no uso que os seus utilizadores dela fazem e, claro, só destes dependem as suas mutações lexicais que, uma vez consagradas no seu uso, se perpetuam no tempo e merecem, no caso da Língua Portuguesa (LP), a aceitação das duas instituições com maior autoridade lexicográfica: a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras.

  Sirvo-me desta nota introdutória como mote de reflexão em torno das chamadas línguas inclusivas e neutras. E, desde já, vinco a minha total discordância quer em relação a uma, quer em relação a outra. Os modismos são o que são e valem o que valem. Vejamos, primeiro, em que é que consiste cada um destes conceitos:

  1 – Linguagem inclusiva (não sexista)

  Trata-se de uma suposta variante que, não se propondo alterar o léxico da LP tal como o conhecemos, advoga uma comunicação pretensamente não discriminatória, sob o ponto de vista do género. Vejamos um exemplo muito recorrente: “Portugueses e portuguesas…”, quando um orador se dirige a um público compósito (homens e mulheres);

  2 – Linguagem neutra (não binária)

  Prossegue os mesmos objetivos da linguagem inclusiva, mas altera palavras já existentes ou introduz novos vocábulos. É o caso da neutralização das desinências de género do pronome “todos”. Vejamos um exemplo concreto: “Saiam todes da sala!”

  Na base destes dois tipos de linguagem, estão conhecidos movimentos feministas de todo o mundo, bem como organizações inclusivas de pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de género. Desenganem-se todos aqueles que veem na eclosão destas linguagens meras iniciativas efémeras. Não, estas linguagens estão a afirmar-se em todos os cantos do planeta, nomeadamente na Europa. Tomemos como ilustrativo o recente caso ocorrido em França, onde o respetivo poder político vetou o uso da chamada gramática igualitária em documentos oficiais, com a devida concordância da Academia Francesa que chegou mesmo a referir-se a esta tendência linguística como “um perigo de morte para a francofonia”.

  A flexão em género é uma característica do nosso idioma, à imagem do que acontece, genericamente, com as restantes línguas neolatinas. Sobre a origem desta flexão, nomeadamente da predominância do género masculino em algumas palavras (outrora com desinência neutra), já me pronunciei num artigo anterior, também aqui publicado. Alterar este status quo linguístico em nome da igualdade de género não faz para mim o menor sentido. É urgente acabar com aquilo que aqui rotulo como vanguardas fundamentalistas e que estas linguagens acima explicitadas não passem de um mero processo de intenções. Imagine-se termos agora que expandir os nossos dicionários com entradas de género regular: gato/gata; menino/menina... NÃO, OBRIGADO!

  As sociedades ainda permanecem fieis à sua matriz machista, é certo, mas não se remedeia um erro com outro erro. Não é pelo facto de um político iniciar os seus discursos com expressões como “portuguesas e portugueses” que se combate a discriminação de género. Haja coragem para o fazer, mas sem se recorrer a adornos linguísticos estéreis ou a quaisquer outros atavios infecundos.


14/02/2021

"Cântico Negro" na voz de Sandra Coelho



   Já quase 100 anos nos separam (ou nos juntam) dos Poemas de Deus e do Diabo da lavra de José Régio. Deles trago aqui o Cântico Negro, o poema-manifesto que subsume em si todo um estilo presencista que viria a marcar a obra poética deste escritor modernista, uma pedra no charco que agita a cultura portuguesa, anémica e irresoluta, do primeiro quartel do século XX.

   O sujeito poético não quer ir por aí, porque por aí vão todos os outros. Não estamos perante uma atitude isolacionista, mas antes de um ego inconformado, uma ovelha tresmalhada em rota de colisão um alter seguidista.

 

   É nesta individualidade que o modernista se refugia e se recusa a ser igual aos demais, resistindo ao chamamento de uma sociedade apática e previsível. Um sujeito poético que opta; um eu que faz escolhas sem interferências externas; que não teme as consequências das suas decisões, mesmo que estas o conduzam ao fracasso e ao grotesco (amo os abismos, as torrentes, os desertos...); que abraça a novidade emergente de uma vida moderna, instável e progressista, em rotura com o cheiro a mofo do conservadorismo: a sua vida é um vendaval que se soltou, uma onda que se alevantou, um átomo a mais que se animou...

 

   Mas o poeta também se mostra na sua dimensão metafísica, característica que entalha a sua obra com uma religiosidade indelével: Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!

 

   Parabéns à Sandrinha pela forma brilhante como deu voz ao poeta!

 

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

 

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

 

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

 

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

 

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

 

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,

É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

03/01/2021

Um brinde à memória de Torga


  Hoje lembrei-me de Torga. Como durienses que somos, gostamos de fruto da videira e do trabalho do homem. Eu gosto, ele, provavelmente.

  Peguei num dos seus livros e abri uma garrafa de vinho da nossa zona. Coloquei dois copos sobre a mesa e fiz o ofertório: um para mim e outro para ele. A ideia era ir bebendo enquanto lia. Beber um copo no final de cada poema. O dele manteve-se cheio, o meu, nem por isso.

  Guardei o fundo da garrafa para este:

 

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer,
enquanto O nosso amor Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada







29/11/2020

“O COVID-19” ou “a COVID-19”?



    Além dos problemas de saúde pública, a atual pandemia trouxe consigo um conjunto de palavras novas que, rapidamente, entraram no vocabulário ativo de cada um de nós. É o caso concreto do acrónimo “COVID-19”, ouvido e lido diariamente por todos nós. Mas palavras novas levantam dúvidas novas.


   Vejamos, a título de exemplo, dois excertos de diplomas legais procedidos de dois ministérios governamentais diferentes:

 

                 […] "encerramento de instalações por perigo de contágio pela COVID-19" […]

               (Despacho n.º 5897-B/2020, Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social)

 

                 […] "máscaras destinadas à utilização no âmbito da pandemia do COVID-19" […]

               (Despacho n.º 5900/2020, Ministério do Estado, Economia e Transição Digital)

 

    Estes dois fragmentos revelam claras oscilações relativas ao género da palavra. O primeiro atribui-lhe o género feminino e o segundo, o género masculino. Em que ficamos, afinal?


    O acrónimo COVID-19 provém da expressão inglesa coronavirus disease. Ele forma-se nas sílabas truncadas CO- e VI-, obtidas do vocábulo coronarus. A estas, junta-se a inicial “D” da palavra disease («doença»). O número 19 refere o ano em que o vírus foi detetado.


    As variações de género atribuídas ao acrónimo resultam duma inegável confusão entre a doença e o vírus que a provoca. COVID-19 é uma doença (desease) e o coronavírus, um agente causador. Aliás, na persistência da dúvida, façamos uma analogia com os acrónimos SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida) e VIH (vírus da imunodeficiência humana). No primeiro, a palavra “síndrome” transfere o seu género feminino para SIDA (uma doença); no segundo, o vocábulo “vírus” empresta o mesmo género a VIH (agente responsável pela doença).


  No entanto, importa salvaguardar aqui o princípio da adaptação dos acrónimos com origem estrangeira, ao abrigo do qual se legitima qualquer género já vulgarizado, ainda que contraditório com a gramaticalidade da língua original.


   Já agora, aproveito para clarificar a pronúncia da palavra “coronavírus” no português europeu. O “o”, inserto na primeira sílaba “co”, é proferido como se de um “u” se tratasse, assumindo toda a palavra a prolação “curônavírus”: [kuronɐˈviruʃ].

 

 Use-se masculino ou feminino; diga-se [kuronɐˈviruʃ] ou [koronɐˈviruʃ], o mais importante, para já, é protegerem-se e protegerem os outros.

Coloquem a máscara!