19/03/2026

HOJE ESTOU TIPO COM VONTADE DE ESCREVER SOBRE O “TIPO”

 O que se passa com os nossos alunos (e não só) que não param de usar, por tudo e por nada, a palavra “tipo”?!

«Estou, tipo, com sono»;

«Apetece-me, tipo, comer um chocolate…»

Há dias, deu-me para contar o número de vezes que os alunos de uma das minhas turmas recorrem ao uso desta palavra em contexto de sala de aula, não porque não tivesse mais que fazer, mas porque fui movido por mera curiosidade sedutora. Contei-as durante uma semana e os resultados não me surpreenderam: 92 ocorrências. E até estou em crer que essa não foi uma das semanas mais férteis nessa matéria.

Perguntei-lhes, depois, por que razão o fazem e as respostas que obtive foram muito semelhantes: «Não sei, professor, sai-me!»

Parece-me claro que estamos perante mais um bordão de fala provocado pela rapidez da comunicação, uma espécie de muleta linguística a que se recorre, de forma automatizada, em momentos de hesitação no discurso.

Este fenómeno também não escapou aos linguistas do utilíssimo “Ciberdúvidas da língua portuguesa” que concluíram tratar-se de um marcador discursivo, «unidades linguísticas invariáveis, com alto grau de gramaticalização, que não desempenham uma função sintática no âmbito da frase, nem contribuem para o sentido proposicional do discurso, mas que têm uma função relevante na produção dos atos pragmático-discursivos, estabelecendo conexões entre os enunciados, organizando-os em blocos, indicando o seu sentido argumentativo, introduzindo novos temas, mantendo e orientando o contacto do locutor com o interlocutor.»

Tenho constatado também que esta tendência (ou moda, como queiram) não constitui um apanágio das idades mais jovens, pois parece-me ter sido já incorporada na conversação dos falantes adultos, talvez por mero efeito de contágio ou porque veem nela uma forma de aproximação aos seus filhos, utilizando o “tipo” como mecanismo de supressão de barreiras intergeracionais.

Bom, agora, tipo, despeço-me dos meus leitores com, tipo, um abraço.

29/11/2025

“Tem que” ou “tem de”

         Aquando da Medalha de Mérito Cultural atribuída a Herman José, o comediante disse o seguinte:

 «A liberdade tem que ser regada».

 Concordo com o espírito da afirmação, mas não deixo de registar a derrapagem linguística do “tem que ser”.

Apesar de muitos recorrerem ao uso indiscriminado das construções “ter que” e “ter de”, o que é certo é que o alcance semântico de cada uma delas é diferente, senão vejamos:

 

1 – Quando queremos expressar um desejo ou, como neste caso concreto, uma obrigação, uma necessidade ou um dever relativamente a algo (a obrigação ou o dever de regarmos a liberdade para a manter saudável), a construção correta é “A liberdade tem de ser regada”. O verbo ter ocorre aqui como verbo auxiliar de uma conjugação perifrástica;

2 – Em direção semântica distinta, segue a construção ter que, onde o ter não é considerado um auxiliar, mas um verbo principal, com significação própria: possuir ou usufruir, consoante o contexto verbal (ou cotexto, no dizer dos filósofos da linguagem de Oxford). É nesta esfera conceptual que se enquadram os sintagmas substantivos que fazer e que contar:

a) "Ter que fazer” (ter muito trabalho a seu cargo);

b)    “Ter que contar” (possuir peripécias para contar. Veja-se o que escreveu Almeida Garrett: «Lá vem a Nau Catrineta / que tem muito que contar!», onde o verbo assume o seu significado pleno);

Vejamos agora duas frases que, enganosamente, apontam para uma mesmidade de sentido, mas que não o são:

c)    “O mendigo não tem que comer”;

d)    “O mendigo não tem de comer”.

Em c), estamos a falar de um mendigo que comeria se tivesse algum alimento que lhe servisse de refeição. Já em d), referimo-nos a um mendigo que, embora tenha alimentos disponíveis, não come, porque não é obrigado a fazê-lo.

    Bom, agora tenho de terminar este artigo que já vai longo e tenho mais que fazer.

09/06/2025

“À última da hora” vs “à última hora”

 


   Na sua edição de 14 de maio de 2025, o Jornal de Notícias publicou um artigo sobre o último Festival de Cinema de Cannes e fê-lo com um título em caixa alta:
 
      “Halle Berry mudou de roupa à última da hora devido às novas regras de Cannes”
 
   Confesso que a indumentária que os famosos escolhem para determinadas cerimónias é assunto que pouco ou nada me interessa, muito embora tenha uma predileção especial sobre tudo que diga respeito à sétima arte, ainda mais tratando-se de Halle Berry, uma das atrizes mais talentosas do mundo do cinema. O que me levou a dedicar algum do meu tempo a este artigo foi o teor linguístico do seu título, mais concretamente a expressão “à última da hora” que, em bom rigor, constitui mais um vício de linguagem dos muitos que por aí grassam.
   Quantos de nós já não a utilizámos em conversações informais ou mesmo quando escrevemos à pressa? Acontece que a jornalista que assinou o texto, capitulado nos referidos termos, não estava a escrever à pressa nem tão-pouco a conversar num contexto de informalidade.
   Não é correto escrever/dizer “à última da hora”, tal como não seria aceitável escrever/dizer “ao último do minuto” ou “ao último do segundo”. Já agora, seria admissível a locução “à primeira da hora”?! Claro que não.
   A forma correta é “à última hora”, com o significado de “último instante”:
   É verdade que há dicionários que registam as duas formas para o mesmo sentido (como é o caso do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências ou do Priberam), no entanto, tal preceito não legitima o uso do solecismo, na medida em que este tem merecido o repúdio da generalidade dos especialistas.




11/03/2025

“Visualização de um vídeo” ou “visionamento de um vídeo”?


   Existe ou não uma diferença de sentido entre “visualização de um vídeo” e “visionamento de um vídeo”?

   Provavelmente, muitos de nós já tropeçámos nesta dúvida, sempre que quisemos registar uma determinada atividade letiva num sumário de aula ou uma iniciativa num plano anual de atividades.

   Uma tendência mais desavisada leva-nos ao uso indiscriminado das duas formas, no pressuposto de que se trata de uma sinonímia como tantas outras disponíveis no léxico da língua portuguesa.

   Não, “visualização” e “visionamento” não constituem uma mesmidade. É certo que, ao nível da decomposição lexical, estes dois vocábulos partilham alguns semas, mas possuem outros que se mostram divergentes entre si, conferindo-lhes um carácter distintivo.

   “Visualizamos um vídeo” quando a ele assistimos numa perspetiva de mero espetador. No entanto, se o fizermos sob um ponto de vista técnico, aí já estaremos não a visualizar o vídeo, mas a “visioná-lo”.

   Importa ainda referir que “visualizar” também pode significar, numa conceção semântica mais generalizada da palavra, o simples ato de ver, ou seja, podemos “visualizar uma gaivota no céu” ou “visualizar o trânsito em hora de ponta”.

   Vejamos, pois, alguns exemplos do que acabámos de referir:

 

(1)       «Além do contexto de produção e exibição do filme, o contexto de visionamento é também um fator essencial para a apreciação de um filme.» (https://www.jornaldeleiria.pt/opiniao/cinema-or-arte-e-lazer)

(2)       «Adicionar filmes e séries à lista de visualização é um processo simples […]» (https://www.pcguia.pt/2024/09/como-usar-o-google-para-criar-uma-lista-de-series-e-filmes-que-quer-ver/)

(3) «Outros sintomas de alarme são a dor nos olhos, visualização de “flashes de luz”» (https://www.saudebemestar.pt/pt/clinica/oftalmologia/visao-turva/)

 

   Resumindo, em (1), está-se a olhar para um filme sob o ponto de vista técnico; em (2), olhamos para os filmes numa perspetiva de espetador; em (3), falamos apenas do mero ato de olhar.

18/01/2025

VEM POR AQUI, NÃO VÁS POR ALI

 

A vida é um caminho cheio de portas.

Portas que se abrem, que se fecham,

Portas que se abrem por descuido,

Mas que, abertas, já não fecham…

E BERRO: NÃO!

Portas que se fecham por desleixo,

Mas que, fechadas, já não abrem…

GRITO: SIM!

São portas manhosas, portas cruéis,

São portas amigas, portas fiéis.

13/12/2024

“Envio anexo” ou “envio em anexo”?

     

    Ao longo das últimas décadas, o correio eletrónico tem vindo a ganhar um espaço preferencial na comunicação entre pessoas, instituições e empresas. De tal forma assim é que seria impensável, nos dias que correm, qualquer um de nós prescindir de tal ferramenta.

    São muitas as suas potencialidades e estas não encontram paralelo nos meios de comunicação tradicionais: a rapidez com que chegamos aos nossos destinatários, recorrendo a um simples clique; o envio de mensagens a um grande número de destinatários, em simultâneo; e a possibilidade de anexarmos documentos/imagens. Ora, é precisamente daqui que decorre o tema que hoje vos trago.

    Quem nunca escreveu “envio em anexo” que atire a primeira pedra.

    Eu não vou atirar, garanto-vos.

    A palavra “anexo” é um adjetivo e não um advérbio. Não ocorre como modo da ação “enviar”, mas como qualificativo do nome a que se refere, com ele concordando em género e em número. Daí que se escreva “envio anexas as faturas deste mês” e não ““envio em anexo as faturas deste mês”.

    A tendência para a anteposição da preposição “em”, adjacente aos adjetivos, constitui um galicismo que se revela adverso ao cânone regulamentar da nossa língua. Nada me move contra os empréstimos linguísticos quando estes se mostram necessários, o que não é o caso. Quando assim não é, há que evitá-los.

    Será este mais um resquício da francomania que se viveu em Portugal nos anos finais do século XIX? Talvez. Nesses tempos, a nossa capital estava rendida à cultura francesa e eram muito comuns, por entre nós, as “macaquices de imitação”. Boas razões levaram, pois, o compositor Raul Ferrão a criar a célebre música “Lisboa, não sejas francesa”, chegada até nós pela voz sublime da nossa Amália Rodrigues:

 

Lisboa, não sejas francesa
Com toda a certeza não vais ser feliz
Lisboa, que ideia daninha
Vaidosa, alfacinha, casar com Paris

Lisboa, tens cá namorados
Que dizem, coitados, com as almas na voz
Lisboa, não sejas francesa
Tu és portuguesa, tu és só pra nós

09/06/2024

“FOI UM DOS QUE GANHOU” vs “FOI UM DOS QUE GANHARAM”

    Sem dúvidas, diz-se e escreve-se “Ele foi um dos que ganharam o concurso”.

    Este é um solecismo epidémico que grassa pelas bocas de muitos dos falantes da língua portuguesa. Influenciados pela força de atração da palavra “um”, caem no erro de estabelecer uma concordância enganosa entre ela e o verbo que lhe é posposto.

    Existe um processo heurístico que facilmente desmonta esta impolidez sintática e que passa pela inversão da ordem dos elementos na frase:

    1 - Ele foi um dos que ganhou o concurso;

    2 – Dos que ganhou o concurso, ele foi um.

    A concordância desviante desta construção frásica facilmente se faz notar no exemplo 2, onde se sobreleva a imperiosidade do plural do verbo “ganhar”.

    Outros dirão, no entanto, que a ocorrência do singular pode ser usada com propósitos enfáticos, de forma a destacar a importância de “um” no contexto daqueles “que ganharam o concurso”. A esses direi, contudo, que tal argumento resulta apenas de uma tentativa de salvar a face de escritores consagrados que usaram a forma singular do verbo neste tipo de construções. Os melhores escritores também erram e não são necessários tais contorcionismos linguísticos para lhes disfarçar as gafes, pois não será por elas que lhes cairão os parentes à lama e tampouco se lhes retira o inquestionável mérito literário.

    Para que evitemos esta praga linguística, sigamos o exemplo de Camões quando escreve “Era este Catual um dos que estavam corruptos”.

06/03/2024

Entre Tânger e tangerina

 


    Há dias, enquanto fazia algumas compras num minimercado perto da minha casa, lembrei-me de como há palavras que carregam, na sua origem, informação sobre a nossa história. Estava na secção da fruta e, num papel identificador, estava escrito «tangerinas: 2 euros o quilo”. Não foi o preço que me chamou a atenção nem tão-pouco a vontade de as comprar. Foi a palavra em si.

    Fala-se hoje muito, nas escolas, dos domínios de autonomia curricular (as chamadas DAC) e das suas potencialidades na exploração de percursos pedagógico-didáticos que intersetam aprendizagens de diferentes disciplinas. Logo ali, pensei nas muitas palavras da nossa língua que podem convocar um trabalho interdisciplinar bastante fecundo entre a Língua Portuguesa e a História. É que a palavra “tangerina” (outrora chamada laranja tangerina) pode ser, também ela, um discreto documento histórico.

    A palavra recebeu o seu nome de Tânger, a importante cidade do norte de África, conquistada pelos portugueses em 1471. Era aí, nomeadamente no seu porto mercantil, que o pequeno citrino era exportado para a Europa.

    A tangerina, variante feminina de tangerino (gentílico que significa natural da cidade de Tânger), crescia abundantemente nos pomares daquela região e foram precisamente os árabes que a introduziram em Portugal.

    Deixo aqui esta sugestão para “descascar” um trabalho articulado com os alunos, convidando também os professores de Ciência Naturais a juntarem-se a este desafio, pois há também que classificar o fruto sob o ponto de vista científico e nutricional.

08/12/2023

“COM CERTEZA” DE QUE É ASSIM QUE SE ESCREVE

 



   Não obstante as minhas limitações científicas sobre matérias relacionadas com a Astrofísica, a verdade é que não perco uma oportunidade para ler notícias e artigos sobre o este assunto, pelo fascínio incomensurável que ele me causa. Foi precisamente num desses momentos de leitura que me deparei com algo que me despertou a atenção linguística e mereceu, por isso, um devido apontamento que aqui vos trago.

   O texto em causa veicula a opinião de Vítor Cardoso, um ilustríssimo físico cuja mestria e superlativa erudição de pensamento não passa despercebida na comunidade científica internacional. O artigo vinha publicado no jornal Expresso do pretérito dia 6/10/2020, na sua edição digital (Estamos a aproximar-nos cada vez mais da superfície dos buracos negros - Expresso).

   A certa altura, escreve o autor:

     «[…] Isto não prova que esse objeto seja um buraco negro - na realidade, por definição é impossível provar que buracos negros existem - mas é concerteza evidência boa […]» (sublinhado meu).

   Não configurando propriamente um buraco negro na ortografia portuguesa, não deixo de destacar o erro na grafia de “com certeza”, muito comum, aliás, na generalidade dos utilizadores da nossa língua. Erros como este há-os em quantidades generosas e resultam de uma clara interferência da oralidade na escrita, na medida em que quem fala tende a aglutinar sons que devem ser separados por quem escreve.

   Fenómeno semelhante é aquele que se verifica em equívocos tão recorrentes como “benvindo” em vez de “bem-vindo”, “depressa” em vez de “de pressa”, “derrepente” em vez de “de repente” ou “secalhar” em vez de “se calhar”.

07/07/2022

Dignitário e não dignatário

   Na edição do jornal Expresso do dia 10 de março deste ano, foi veiculada uma notícia sobre a guerra na Ucrânia que dava nota da vontade de o papa Francisco mediar um entendimento diplomático entre os dois líderes em conflito, tendo, inclusivamente, nomeado dois cardeais para esse efeito. A certa altura, lê-se o seguinte:

 “As movimentações diplomáticas não esgotam, porém, as ações que o Papa Francisco tem levado a cabo nos últimos dias e que passaram pelo envio, para o cenário de guerra, de dois altos dignatários de Roma.”

   Com todo o respeito que me merece o semanário informativo e o jornalista responsável pela redação do texto, não posso deixar de assinalar um erro de português que ocorre neste pequeno excerto, mais especificamente na palavra dignitário, aí escrita erradamente.

   É certo que não se trata de um erro incomum, pelo contrário, ele ocorre com muita frequência no uso dial da nossa língua. Contudo, estamos a falar de um jornal de referência no universo da comunicação social, do qual se exige o devido rigor.

   A tendência para o uso errado da palavra, na forma “dignatário”, decorre de um fenómeno de contágio marcado pela grafia do verbo “dignar”.

   Trata-se de um vocábulo que resulta do aportuguesamento do “dignitaire” francês que, por sua vez, radica do termo latino “dignitate”. A história fonética da palavra “dignitário” revela-nos um possível estado intermédio que a fixou como “dignitatário”, já com a presença do sufixo “-ário”, sobre a qual foi exercida uma haplologia que fez cair a terceira sílaba, resultando na forma sincopada “dignitário”, atualmente usada na nossa língua.

   Esta vocação evolutiva do vocabulário português para a supressão da primeira de duas sílabas semelhantes, em adjacência silábica, pode ser verificada também noutros casos concretos como:

 bondade + oso    >     bondadoso     >    bondoso

caridade + oso    >     caridadoso     >    caridoso

cândido + ura     >     candidura       >    candura

idade + oso        >     idadoso           >    idoso

    O fenómeno haplológico também ocorre noutras línguas, como é o caso da palavra inglesa probably:

 probable + ly     >     probablely       >    probably

    Encerro este texto, desejando aos meus dignitários leitores umas boas férias de verão (se for esse o caso), fazendo votos de que os próximos dias tragam a paz para a Ucrânia e Rússia, em vez de atitudes maldadosas (i.e. maldosas).

 

 

 


03/04/2022

Sandes, Sande, Sanduíche?


 

Sandes, Sande, Sanduíche?

 

    A palavra sande tem suscitado dúvidas recorrentes em todos aqueles que gostam de fazer um bom uso da língua portuguesa. Para outros, no entanto, a questão nem se coloca pois o que importa é que o pão esteja fresco e o presunto venha em quantidades generosas.

    Devemos pedir uma sande, uma sandes ou uma sanduíche?

   A palavra sanduíche resulta de um aportuguesamento do vocábulo inglês sandwich. Através de um processo de truncação, a palavra foi reduzida a sand/sandes, tal como aconteceu, por exemplo, com a passagem de metropolitano a metro.

   Não é necessária uma abordagem estatística exaustiva para concluir que, no singular, a forma sandes se sobrepõe a sande no uso dial da língua lusa. No entanto, resulta numa irrefutabilidade a conclusão de que a forma sandes decorre da flexão regular de sande na sua variação em número, ou seja: uma sande, duas sandes. É esta a perspetiva normativista da questão, na base da qual somos levados a concluir que não se pode pedir uma sandes, mas uma sande.

   Acontece que, em língua alguma, os seus utilizadores se sentem reféns da inflexibilidade normativa quando falam ou escrevem. Aliás, alguns dicionários já lexicalizaram o plural da palavra no seu uso singularizado.

   Normas linguísticas à parte, a perspetiva descritivista dos especialistas diz-nos que o uso da forma sandes se consagrou nos mais variados contextos geográficos do país, pelo que de nada vale ao ímpeto purista da língua continuar a contrariar o que não é contrariável.

   Curiosidade:

   A palavra sandwich, enquanto epónimo, tem origens lendárias. Acredita-se que John Montagu, Conde da cidade britânica de Sandwich (séc. XVIII), era viciado em jogos de cartas. Envolvia-se tão entusiasticamente nas cartadas que se recusava suspendê-las no momento das suas refeições. Como forma de saciar o estômago sem abandonar a mesa de jogo, ordenava que lhe trouxessem um naco de carne assada entalada em duas fatias de pão. De quando em vez, variava o recheio com outras opções nutritivas. Os seus parceiros de jogo, ao constatar a natureza nutrícia e pragmática da bucha, trataram de a popularizar junto dos clubes londrinos da época.

21/03/2022

Gastão Cruz, para sempre


 

Faleceu, hoje, mais um talento da literatura portuguesa e, com ele, parte também um homem culto, um académico, um ser humano generoso.

Poeta, ensaísta e tradutor, entrou para o grande palco das belas letras lusitanas no ano de 1961 e, de lá para cá, não mais parou de bem escrever.

Agora, a morte percutiva "devolve ao chão as folhas e os ossos", mas preserva para o sempre o seu precioso estro.

Condolências à família e amigos.

Obrigado!

28/02/2022

Histórias com música - O peixinho cor de prata

 


 

Histórias com música: Chanfrisco - O pinto careca


 

Histórias com música, de Rogério Duarte


 

    Nem só de leitores adultos vivem as belas letras. Na esfera da literatura cabem igualmente os leitores de palmo e meio, sendo na multiplicidade da produção de textos que o património literário se constrói.

   A partir de agora, o "Esta língua que me fez" passará a publicar a rubrica "Histórias com música", de Rogério Duarte, um professor radicado em São Pedro do Sul, que dedicou uma parte substancial da sua vida à escrita para crianças, contando já com várias obras publicadas.

   Os seus livros estão agora disponíveis, em formato "contador de histórias", no canal do Youtube, pela voz do próprio autor, numa clara demonstração da arte de bem contar.

   Espero que gostem!

05/12/2021

Não digam “rúbrica”, por favor!

Caros leitores, se estiverem atentos à forma como, na conversação dial e também na nossa comunicação social, é pronunciada, de forma reiterada, a palavra “rubrica”, constatarão que esse vocábulo ocorre com a prolação [‘ubrikα], como se a tónica estivesse localizada na primeira sílaba, ou seja: rú–bri-ca.

Ora, mandam as regras da prosódia da língua portuguesa que a palavra em questão seja pronunciada com a tónica na penúltima sílaba [u’brikα], na medida em que se trata de uma palavra paroxítona.

Desenganem-se, por isso, todos aqueles que defendem a coexistência das duas formas, alegando que “rúbrica” nos remete para uma assinatura abreviada e “rubrica”, quando falamos de um assunto, matéria, tópico, programa radiofónico ou televisivo. A palavra deve pronunciar-se com acentuação grave para todas as suas aceções, não possuindo, na escrita, qualquer acento gráfico.

Já agora, deixo-vos aqui uma pequena abordagem à história deste vocábulo tão maltratado nos nossos dias:

Do latim rubrĩca, œ (tinta vermelha), diretamente ligada a ruber, rubra e rubrum (vermelho), tinha como significado “argila vermelha”. O facto de os livros ancestrais e os manuscritos medievos possuírem os seus títulos a cor vermelha fez com que a sua designação passasse a ser conhecida como rubricas. O mesmo sucede com a letra ou linha inicial de um capítulo em códices antigos; as notas dos breviários ou missais; ou os títulos dos capítulos de livros de direito… todos eles escritos a tinta vermelha. Só muito mais tarde, a mesma palavra adquiriu o alcance semântico de assinatura abreviada.

Esta foi a minha rubrica de hoje.

03/09/2021

Até sempre, Isabel da Nóbrega

 



Uma vida que se perde, um estro que perdura.

Celebremos o mérito de mais um grande valor da nossa literatura. Maria Isabel Guerra Bastos Gonçalves, assim chamada desde o nascimento, mas que, na esfera das belas letras, se viria a afirmar sob o pseudónimo de Isabel da Nóbrega.

O talento, no entanto, não se fez apenas valer na literatura. Com a escritora parte também uma imagem de marca do jornalismo.

Foram 96 anos de dedicação e afirmação feminina no panorama cultural do nosso país e do mundo.

Fica para sempre a sua obra, o seu legado intelectual e a beleza irrepetível dos seus olhos.

Obrigado!

16/06/2021

Linguagens inclusivas/neutras? Não, obrigado!



  Antes de mais, quero deixar claro que não sou daqueles que se batem pelo estaticismo da língua portuguesa, mas também não me quero prevalecer do estereótipo falacioso de que a língua é um organismo vivo. Ela só existe no uso que os seus utilizadores dela fazem e, claro, só destes dependem as suas mutações lexicais que, uma vez consagradas no seu uso, se perpetuam no tempo e merecem, no caso da Língua Portuguesa (LP), a aceitação das duas instituições com maior autoridade lexicográfica: a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras.

  Sirvo-me desta nota introdutória como mote de reflexão em torno das chamadas línguas inclusivas e neutras. E, desde já, vinco a minha total discordância quer em relação a uma, quer em relação a outra. Os modismos são o que são e valem o que valem. Vejamos, primeiro, em que é que consiste cada um destes conceitos:

  1 – Linguagem inclusiva (não sexista)

  Trata-se de uma suposta variante que, não se propondo alterar o léxico da LP tal como o conhecemos, advoga uma comunicação pretensamente não discriminatória, sob o ponto de vista do género. Vejamos um exemplo muito recorrente: “Portugueses e portuguesas…”, quando um orador se dirige a um público compósito (homens e mulheres);

  2 – Linguagem neutra (não binária)

  Prossegue os mesmos objetivos da linguagem inclusiva, mas altera palavras já existentes ou introduz novos vocábulos. É o caso da neutralização das desinências de género do pronome “todos”. Vejamos um exemplo concreto: “Saiam todes da sala!”

  Na base destes dois tipos de linguagem, estão conhecidos movimentos feministas de todo o mundo, bem como organizações inclusivas de pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de género. Desenganem-se todos aqueles que veem na eclosão destas linguagens meras iniciativas efémeras. Não, estas linguagens estão a afirmar-se em todos os cantos do planeta, nomeadamente na Europa. Tomemos como ilustrativo o recente caso ocorrido em França, onde o respetivo poder político vetou o uso da chamada gramática igualitária em documentos oficiais, com a devida concordância da Academia Francesa que chegou mesmo a referir-se a esta tendência linguística como “um perigo de morte para a francofonia”.

  A flexão em género é uma característica do nosso idioma, à imagem do que acontece, genericamente, com as restantes línguas neolatinas. Sobre a origem desta flexão, nomeadamente da predominância do género masculino em algumas palavras (outrora com desinência neutra), já me pronunciei num artigo anterior, também aqui publicado. Alterar este status quo linguístico em nome da igualdade de género não faz para mim o menor sentido. É urgente acabar com aquilo que aqui rotulo como vanguardas fundamentalistas e que estas linguagens acima explicitadas não passem de um mero processo de intenções. Imagine-se termos agora que expandir os nossos dicionários com entradas de género regular: gato/gata; menino/menina... NÃO, OBRIGADO!

  As sociedades ainda permanecem fieis à sua matriz machista, é certo, mas não se remedeia um erro com outro erro. Não é pelo facto de um político iniciar os seus discursos com expressões como “portuguesas e portugueses” que se combate a discriminação de género. Haja coragem para o fazer, mas sem se recorrer a adornos linguísticos estéreis ou a quaisquer outros atavios infecundos.